Jumento de Tróia
   

O Jumento de Tróia é um espaço para a discussão de idéias de interesse geral da sociedade, que não estejam necessariamente na ordem do dia e que eventualmente podem até mesmo parecer difíceis de serem implementadas do ponto de vista político.
O Jumento também deverá apresentar artigos de economia aplicada em geral e mesmo artigos um pouco na linha "freakonomics".

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    O JUMENTO SÓ QUER PASTAR

    Comunicado: até estou sofrendo de inanição, não vou mentir prá vc. Mas volto em breve. Eu só quero pastar.

    Jumento



    Escrito por Jumento de Tróia às 17h54
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    Voto facultativo

    O VOTO FACULTATIVO E O PARADOXO DA DEMOCRACIA

     

     Rafael Cortez e Adriano Pitoli*

     

    Defender o voto facultativo é quase um lugar comum.

    Para início de conversa, nada mais contraditório do que uma democracia que obriga as pessoas a votarem.

    Para muitos, com o fim da obrigatoriedade do voto, haveria uma maior proporção de eleitores “conscientes e críticos” comparecendo às urnas, o que melhoraria a qualidade dos políticos eleitos, diminuindo o incentivo para os políticos formulem políticas públicas “eleitoreiras”, com horizonte no curto prazo.

    A melhor prova de que haveria algo errado com a obrigatoriedade do voto no Brasil seria o fato de que a esmagadora maioria dos países democráticos do planeta deixam a critério do eleitor votar ou não. Entre os países desenvolvidos são poucos os que obrigam o cidadão a votar, com destaque para Austrália, Bélgica, Itália e Grécia[1].

    Mas... e se quase todo o mundo livre estiver errado?

    No clássico Uma Teoria Econômica da Democracia, Anthony Downs argumenta que os políticos formulam políticas públicas simplesmente para ganhar eleições ou se manterem no poder. Para tanto, os políticos, por um raciocínio backward looking (ou "de trás para frente"), antecipariam as preferências dos eleitores e formulariam políticas que agradem a maioria.

    Os eleitores seriam agentes racionais no sentido econômico, que decidiriam o voto a partir de um calculo de custo/benefício. O candidato escolhido seria aquele que na avaliação do eleitor lhe propiciaria o maior nível de renda futura possível. Na sua escolha não entraria nenhuma variável relativa ao “bem comum” ou de solidariedade entre classes.

    Mas antes de escolher o candidato, o eleitor tem que decidir se irá votar ou não e é aqui que começam os problemas. O eleitor racional sabe que o seu voto individual não tem nenhuma influência no resultado final da votação. Ao mesmo tempo, votar tem custos.

    O resultado é que nas “democracias avançadas” os eleitores têm todos os incentivos para escolher outra atividade para preencher o dia do sufrágio eleitoral. Viajar, consertar a calha da casa ou visitar a sogra passam a ter uma melhor relação custo/ benefício que votar.

    E olhando mais de perto, parece não haver nenhuma grande democracia do mundo com um processo eleitoral lá muito vibrante, em que as pessoas aguardam ansiosas pelo dia de exercer o direito supremo de escolher seus novos governantes.

    Na maioria dos países democráticos, o índice de comparecimento às urnas é relativamente baixo. Na Europa gira em torno de 75%, no Japão 60% e nos EUA 55%.

    Como agravante, parece haver uma tendência de redução na proporção de votantes. Nos EUA, o comparecimento às urnas passou de 63,3% entre 1968 e 1976, passando para 58,8% entre 1980 e 1988 e para 57,1% em 1992 e 2004. Dinamicamente, portanto, parece haver motivos para preocupações com a saúde das grandes democracias.

    Alguns poderiam dizer que esse baixo comparecimento às urnas não é propriamente um problema, dada a hipótese de que são os eleitores mais conscientes os que comparecem às urnas.

    O problema aqui é definir “consciente”. Se for sinônimo, por exemplo, de um indivíduo racional no sentido econômico, deveríamos esperar justamente o resultado contrário.

    Olhando a participação na eleição para presidente dos EUA de 2004 (onde o índice de comparecimento foi de 58,3%), de acordo com o perfil sócio-econômico, surgem padrões interessantes para avaliar essa hipótese do eleitor consciente:

    - homens votam menos que mulheres (56,3% x 60,1%)

    - não-brancos votam menos que brancos (49,0% x 60,3%)

    - jovens votam menos que velhos (49% entre os de 14-24 anos x 68,9% entre os com mais de 65 anos)

    - os pouco educados votam menos que os muito educados (30,4% entre os com ensino secundário incompleto x 77,4% entre os com pós-graduação)

    - desempregado votam menos que os empregados (46,4% x 60,0%)

    Em resumo, fica claro que os grupos com maior inserção social são também os que mais comparecem às urnas, o que não chega a ser uma surpresa.

    Mas o erro talvez seja pressupor que esses indivíduos com maior influência na sociedade são os mais capacitados a escolher o que é melhor para a coletividade.

    Essa hipótese esconde uma visão elitista e até preconceituosa sobre o processo político e menospreza a capacidade de escolha e julgamento da fatia do eleitorado “pobre e sem escolaridade”.

    Não há nenhuma razão para se esperar que os mais escolarizados, os mais velhos, os brancos, os empregados – enfim, os mais ricos – coloquem o bem-estar geral da sociedade acima dos seus próprios interesses.

    A não obrigatoriedade do voto torna a representação cada vez mais elitista, deslocando o eleitor mediano (que é quem decide a eleição) para o perfil dos setores mais organizados da sociedade.

    Isso explica a falta de cerimônia do governo americano em reduzir os impostos dos mais ricos e as imensas resistências em promover reformas da previdência e do sistema de saúde, que poderiam beneficiar os mais pobres. Essas são apenas as preferências reveladas do tal do eleitor participativo e consciente que o governante precisa acatar caso queira manter-se no poder por mais tempo. 

    O status do direito ao voto tem implicações não apenas para o perfil e qualidade da escolha eleitoral, mas também para a consolidação do regime democrático. O gráfico abaixo demonstra trajetórias distintas em relação ao comparecimento eleitoral, quando comparamos democracias “antigas” com as chamadas “novas democracias”. Nestas últimas, a participação eleitoral cresceu de forma significativa no tempo, até experimentar uma redução mais recente. As democracias antigas apresentam um padrão de participação mais elevado, porém, com tendência de redução.

    Taxa de comparecimento eleitoral por tipo de democracia

    Fonte: Idea.

    Nas novas democracias o voto possui um efeito que vai além da definição das políticas públicas, na medida em que serve como instrumento de consolidação do regime político. Estes países já iniciaram seus sistemas democráticos em um contexto de sufrágio eleitoral consolidado como um direito de cidadania. Aqui, o voto é fundamental para não descolar o regime político das expectativas da sociedade.

    Esta trajetória é distinta das democracias antigas, nas quais, a legitimação do sistema é anterior à expansão do sufrágio universal.

    A obrigatoriedade do voto força a política a caminhar em direção ao cidadão mediano e o bom regime democrático é aquele que respeita as regras do jogo e os direitos das minorias, mas que formule políticas que atendam aos interesses da maioria.  O voto compulsório aumenta o demos, tornando mais representativo o regime.

     

    * Rafael Cortez é cientista político e Adriano Pitoli é economista



    [1] Nelson W. Polsby e Aaron Wildavsky. “Presidential Elections”. 2007.



    Escrito por Jumento de Tróia às 19h11
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    ÍNDICE DE ARTIGOS

     

    emprego

    14. RESGATANDO OS EXCLUÍDOS – REDUÇÃO SELETIVA DOS CUSTOS TRABALHISTAS

    Adriano Pitoli

     

     

     

    preconceito

     

    13. PRECONCEITO, O POLICIAL, O PROFESSOR E O PRESIDENTE

    Márcio Nakane

     

     

     

    regras do futebol

    12. A REGRA É CLARA. MAS É BOA?

    Adriano Pitoli E Andres Rojas

     

     

     

    ciência econômica

    11. ECONOMIA NÃO É FÍSICA

    Gian Barbosa

     

     

     

    crise internacional

    10. SERVIÇO UM CHÁ CONTRA A CRISE?

    Adriano Pitoli

     

     

     

    lei de incentivo cultural

    9. CULTURA PARA OS CULTOS

    Andres Rojas

     

     

     

    Enade x Provão

    8. AVALIAÇÃO: GOSTAR NINGUÉM GOSTA, MAS DEVE-SE FAZER

    Adriano Pitoli

     

     

     

    Pelé x Romário

    7. PELÉ x ROMÁRIO E O CUSTO DA CESTA BÁSICA

    Andres Rojas e Bruno Oliva

     

     

     

    ciência econômica

    6. PARA QUE SERVEM OS ANALISTAS

    Bruno Rezende e Solange Grando Scorsatto

     

     

     

    namoro eletrônico

    5. NinguémMeQuer.Com.Br

    Adriano Pitoli e Gian Barbosa

     

     

     

    carteirinha de estudante

    4. PEQUENOS GRANDES PROBLEMAS DA CARTEIRINHA DE ESTUDANTE

    Adriano Pitoli, Camila Saito e Gian Barbosa

     

     

     

    O Coaxar da Censura Democrática

    3. O COAXAR DA CENSURA DEMOCRÁTICA

    Felipe Salto

     

     

     

    Pontos corridos

    2. RAZÕES PARA ODIAR OS PONTOS CORRIDOS

    Adriano Pitoli

     

     

     

    Pedágio urbano

    1. A solução simples, justa e (temporariamente) impopular para os congestionamentos

    Adriano Pitoli

     

     



    Escrito por Jumento de Tróia às 19h05
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    Incentivo ao emprego (parte 1)

    RESGATANDO OS EXCLUÍDOS – REDUÇÃO SELETIVA DOS CUSTOS TRABALHISTAS

    Adriano Pitoli*

    Um assunto que sempre se discute e nunca se resolve é a necessidade de redução dos custos trabalhistas, com o objetivo de estimular o emprego e reduzir a informalidade. Os principais alvos são as contribuições ao Sistema S e o INSS Empresa, que representam uma carga sobre a folha de pagamento de 2,5% e 20,0%.

    Uma ampla redução dos encargos trabalhistas é sem dúvida desejável. Contudo, talvez haja uma forma alternativa mais eficaz para promover essa desoneração. A ideia defendida aqui é que isso seja feito de modo seletivo, na forma de um subsídio voltado diretamente às pessoas com mais dificuldades de conseguir um emprego de qualidade.

    Mais exatamente, a proposta consiste em estabelecer uma redução temporária dos encargos trabalhistas para as empresas que contratarem com carteira assinada indivíduos que estejam em situação de desvantagem para competir no mercado de trabalho, como os desempregados, os trabalhadores do setor informal, aqueles com baixa qualificação e remuneração – enfim, os chamados outsiders ou excluídos.

    Quem mais precisa não consegue

    Seja por falta de experiência e qualificação adequada, seja por uma questão de discriminação, preconceito ou pura falta de informação sobre a qualidade do candidato, parte dos indivíduos acaba quase sempre preterida na disputa pelas vagas oferecidas pelas empresas.

    E o grande drama dos outsiders é que a sua baixa competitividade é um problema que se auto-alimenta. Estudos mostram que, quanto mais tempo o indivíduo está desempregado, mais difícil torna-se conseguir um novo emprego. Segundo trabalho de Menezes-Filho e Picchetti[1], a partir do sétimo mês de desemprego, a probabilidade de conseguir um novo emprego é cada vez menor. Como agravante, após um determinado tempo fora do mercado de trabalho, o trabalhador acaba desistindo de procurar emprego, deixando de aparecer nas estatísticas como um desempregado.

    De modo análogo, a melhor forma de adquirir qualificação é dentro da própria empresa, enquanto para quem está fora do mercado de trabalho é difícil ter acesso a sistemas de qualificação realmente eficientes. E como um jovem pode conseguir um bom emprego se a maioria das vagas exige experiência prévia?

    Esse círculo vicioso tem um lado positivo. Sugere que os incentivos necessários para que as empresas se disponham a contratar indivíduos menos competitivos não precisam ser permanentes. Uma vez reinseridos no mercado de trabalho, esses indivíduos teriam condições de conquistar, após algum tempo, um nível de competitividade equivalente ao dos demais trabalhadores, quando então poderiam prescindir da ajuda especial.

    O incentivo tributário sugerido deveria, portanto, ser tanto maior quanto mais tempo o indivíduo tenha ficado fora do mercado de trabalho e quanto menor a sua qualificação e experiência.

    O bom também é que um mecanismo como esse não é tão difícil de implementar.

    Apenas como exemplo, o sistema poderia funcionar da seguinte forma. Um trabalhador que nos últimos 5 anos tenha ficado sem carteira assinada por 24 meses poderia proporcionar ao seu futuro empregador uma redução de 100% no recolhimento do INSS Empresa sobre o seu salário (alíquota de 20%) durante um período de, digamos, 12 meses, seguida por uma redução de 75% nos doze meses seguintes, 50% no terceiro ano e 25% no quarto ano. E assim proporcionalmente, dependendo do tempo em que o trabalhador tenha ficado sem registro em carteira.

    Sofisticando um pouco mais esse mecanismo, seria possível gerar também bons incentivos para que as empresas investissem mais na qualificação do conjunto dos trabalhadores. Para tanto, a desoneração temporária poderia ser estendida aos aumentos de salário concedidos pelas empresas aos trabalhadores.

    Como via de regra a transição de uma ocupação com salário menor para outra com salário maior exige um esforço adicional de qualificação, uma redução temporária dos impostos sobre os aumentos de salários poderia servir como um incentivo para que as empresas contratassem trabalhadores menos qualificados para ocupações mais atraentes.

    Outro grupo de indivíduos que um programa deste tipo poderia beneficiar seria o das pessoas portadoras de alguma limitação física. Para estes indivíduos, o programa poderia estabelecer uma redução permanente dos custos trabalhistas, de modo a nivelar o grau de competitividade destas pessoas com o restante dos trabalhadores.

    Condicionar um programa de subsídio temporário ao tempo em que o trabalhador tenha ficado fora do mercado de trabalho formal teria três importantes vantagens em relação a outros programas de estímulo ao emprego e renda.

    Em primeiro lugar, teria um custo relativamente baixo para o governo. Para viabilizar a implementação e monitoramento do programa, seria possível utilizar os registros já existentes no Ministério do Trabalho e no INSS.

    Com relação à renúncia fiscal, desde que os prazos de isenção dos impostos sobre a folha de pagamento sejam definidos adequadamente, pode-se dizer que os impostos que o governo deixaria de arrecadar corresponde a um montante que não seria arrecadado de qualquer forma. Isso, assumindo que na ausência do programa os trabalhadores beneficiados continuariam desempregados ou recebendo um salário menor.

    Restaria a renúncia fiscal correspondente ao valor do benefício previdenciário que o trabalhador passa a ter direito, mas que não teria como contrapartida o recolhimento do INSS Empresa. Mesmo nesse caso, contudo, a renúncia fiscal seria limitada dado que os beneficiários do programa passariam a recolher um volume maior dos impostos que incidem sobre a sua renda e consumo (como o PIS/COFINS e ICMS), compensando o ônus sobre a previdência.



    [1] Menezes-Filho, Naércio e Paulo Picchetti (2000). “Os determinantes da duração do desemprego em São Paulo”, Pesquisa e Planejamento Econômico, 30, 23-48.



    Escrito por Jumento de Tróia às 17h55
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    Incentivo ao emprego (parte 2)

    O desafio de ajudar quem realmente precisa

    A segunda vantagem de um programa deste tipo é o seu grande potencial para efetivamente atingir os objetivos de elevar o número e a qualidade dos empregos.

    O critério de enquadramento no programa proporcionaria um ótimo nível de focalização. Em economês, isso significa que o incentivo conseguiria chegar a quem realmente necessita do subsídio (os outsiders), sem beneficiar quem não necessita – objetivo óbvio, mas que representa um enorme desafio para qualquer programa de benefício social.

    O programa sugerido beneficiaria automaticamente os grupos de trabalhadores que tradicionalmente enfrentam condições muito mais desfavoráveis no mercado de trabalho, como os que estão desempregados há muito tempo, os desqualificados, jovens, mulheres e negros, grupos nos quais o problema do desemprego e baixos salários é muito mais grave, como mostra a PNAD de 2008. Para uma taxa de desemprego média de 7,1%, o problema atinge taxas de:

    -        9,6% entre as mulheres – 4,4 pontos acima dos homens (5,2%);

    -        17,8% entre jovens de 10 a 17 anos e de 14,4% entre jovens de 18 a 24 anos – entre pessoas de 25 a 49 anos, a taxa é de 5,5% e acima dos 50 anos de 2,5%;

    Da mesma forma, a taxa de desemprego entre os negros em 2007 era de 9,3% – 2 pontos acima dos brancos (7,3%). No total, a taxa foi de 8,1%[2].

    Mesmo quando estão empregados, os mesmos grupos de indivíduos (mulheres, negros, jovens, trabalhadores do setor informal e indivíduos com baixa escolaridade) também obtêm renda significativamente inferior à média. As mulheres, por exemplo, ganham 28% abaixo dos homens, em média.

    Independentemente do problema com esses grupos de indivíduos ser de qualificação ou de discriminação, o ponto relevante é que um programa desse tipo serviria para compensar financeiramente as empresas que se disponham a superar restrições à contratação dos trabalhadores menos competitivos.

    Além dos indivíduos menos competitivos, um programa desse tipo beneficiaria o conjunto dos trabalhadores, na medida em que seriam gerados incentivos para o aumento da qualificação e, portanto, de rendimento ao alcance de qualquer trabalhador.

    Em termos comparativos, programas de subsídios dirigidos exclusivamente a grupos sociais em situação de desvantagem, como mulheres, negros ou jovens, tendem a gerar, além de estigma, um menor nível de focalização. Nem todos os indivíduos desses grupos sofrem com problemas de desemprego e baixos salários, como é o caso das mulheres jovens que escolhem a carreira de modelo ou dos jovens negros que se tornam jogadores de futebol. Além disso, esses programas mais segmentados acabam deixando de fora indivíduos que não têm o estereótipo padrão dos outsiders, como, por exemplo, chefes de família brancos que estejam desempregados há muito tempo.

    O programa que se defende aqui, em contraposição, beneficiaria qualquer indivíduo em situação de desvantagem no mercado de trabalho, independentemente de cor, sexo, idade ou religião. Evidentemente, pelo fato de o problema do desemprego e baixos salários ter uma maior incidência entre mulheres, negros, jovens e os pouco escolarizados, estes grupos seriam os mais beneficiados pelo programa.

    Da mesma forma, o sistema de incentivo proposto geraria menos efeitos colaterais no mercado de trabalho comparativamente a outros tipos de sistemas de incentivos já testados em diferentes países e épocas.

    Como exemplo, alguns países implementaram programas de subsídio permanente aos trabalhadores de baixo salário ou às ocupações de baixa qualificação, cujo vício é desincentivar os trabalhadores a buscarem ocupações mais produtivas. Analogamente, programas de seguro-desemprego reduzem o incentivo à procura de um novo emprego. Políticas de elevação do salário mínimo, por sua vez, ao elevarem o custo do trabalho, tendem a reduzir o número de vagas de trabalho ofertadas e, portanto, gerar desemprego.

    Finalmente, com relação ao problema de falta de qualificação, talvez pareça estranho dizer que subsidiar temporariamente os aumentos de salários seja uma opção melhor do que incentivar diretamente programas de treinamento e qualificação.

    Contudo, os programas de qualificação são, em geral, pouco eficientes, principalmente quando oferecidos por outras instituições que não a própria empresa. É comum, por exemplo, que grandes volumes de recursos acabem sendo dirigidos à oferta de cursos e treinamentos voltados a carreiras e funções que disponham de poucas oportunidades de emprego. Mesmo quando a carreira para a qual as pessoas são treinadas mostra-se promissora, acaba sendo sempre difícil para as instituições de ensino manterem seus cursos atualizados e aderentes às reais necessidades de qualificação das empresas.

    Mesmo no caso dos programas de qualificação promovidos pelas próprias empresas, há problemas de eficiência relevantes. Quando o subsídio oferecido pelo governo é alto, as empresas tendem a ser lenientes com a relação custo-benefício dos programas. Quando o subsídio é pequeno, a empresa acaba tendo poucos incentivos para investir em programas de qualificação, dentre outras razões, pelo risco de o trabalhador abandonar o emprego antes de o empregador recuperar os investimentos realizados no programa.

    Talvez ainda mais importante seja o fato de que tão importante quanto a qualificação é a experiência do trabalhador, e isso somente o exercício direto da função propicia.

    Por conta de todas essas limitações dos programas de qualificação, talvez fosse mais eficiente deixar a empresa decidir livremente quais os meios necessários para habilitar um trabalhador pouco qualificação ao exercício de uma ocupação mais produtiva, recompensando-a financeiramente para isso.

    Não adianta contar com o auto-ajuste do mercado

    Caso o mercado de trabalho fosse altamente flexível, não haveria necessidade de um programa de incentivos ao emprego e à qualificação como o que se defende aqui. Os indivíduos menos competitivos sempre poderiam conseguir uma ocupação, bastando que aceitassem trabalhar temporariamente por um salário menor do que o dos demais trabalhadores.

    O fato, porém, é que essa estratégia é mais do que comum para quem deseja se inserir no mercado de trabalho e, mesmo assim, a julgar pela diferença nas taxas de desemprego entre certos grupos de indivíduos, o livre mercado parece não resolver de modo satisfatório o problema.

    O problema é que o mercado de trabalho apresenta um grande número de imperfeições que limitam a eficácia desse processo de auto-ajuste, como a própria existência do salário mínimo, os pisos salariais por categoria profissional, os acordos coletivos, dentre muitos outros.

    Além disso, há outras características do mercado de trabalho que nem podem ser chamadas de “imperfeições”, mas que também contribuem para a marginalização dos trabalhadores menos competitivos. Nas grandes empresas, por exemplo, a política salarial é relativamente rígida e centralizada, dificultando a contratação de trabalhadores com salários diferentes para uma mesma função. Logo, a escolha acaba recaindo sempre sobre os melhores candidatos, mesmo que haja outros dispostos a trabalhar por menos.

    Em resumo, diante de todas as imperfeições do mercado de trabalho e que são difíceis de mudar, o programa proposto poderia contribuir para aumentar o emprego e o salário dos indivíduos em situação de baixa competitividade; reduzir o grave problema de informalidade do mercado de trabalho brasileiro (de quase 50%[3]) e gerar uma maior mobilidade dos trabalhadores, das ocupações de menor qualificação para as de maior qualificação.

    *Adriano Pitoli é economista



    [2] Levantamento do IPEA com base na PNAD 2007 para pessoas acima de 16 anos.

    [3] Segundo a PNAD 2008, entre os ocupados, 48% não contribuem para nenhum instituto de previdência.



    Escrito por Jumento de Tróia às 17h54
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    Preconceito

    PRECONCEITO, O POLICIAL, O PROFESSOR E O PRESIDENTE

     

    Márcio Nakane*

    Ganhou notoriedade a polêmica envolvendo a prisão de Henry Louis Gates, professor de Harvard e autoridade mundial em estudos afro-americanos pelo policial Jim Crowley, acusado de racista pelo primeiro. O presidente Barack Obama envolveu-se na pendenga mencionando que o policial agiu ‘estupidamente’. Diante do furor causado por estes comentários, as partes envolvidas foram convidadas para um happy hour na Casa Branca para desfrutar de uma cerveja conciliatória.

    Antes de entrar no tema específico deste texto, recorde-se os fatos que culminaram na prisão do eminente acadêmico: o mesmo estava voltando de viagem quando, chegando em casa, percebeu que a porta estava obstruída. Forçou então a porta da casa e entrou. Mas deu o azar de ter sido visto por uma atenta vizinha que, ao pensar que pudesse se tratar de um meliante, chamou a polícia local. Entra em cena o sargento Jim Crowley. Os fatos subseqüentes não são muito claros. Professor Gates menciona que, mesmo após ter se identificado como o morador da casa, o policial quis prendê-lo. O sargento Crowley, por sua vez, diz que apenas decidiu prender o professor porque o mesmo lhe faltou com o respeito. Posteriormente, a polícia de Cambridge, Massachussets, arquivou a acusação de conduta desordeira (‘disorderly conduct charge’) e qualificou a prisão de lamentável e infeliz (‘regrettable and unfortunate’).

    Todo o episódio envolve elementos fascinantes que, por si só, mereceriam ser objeto de atenção: um acadêmico negro especialista em ‘estudos afro-americanos’ (esta identificação entre sujeito e objeto também parece caracterizar a área do conhecimento chamada de ‘women studies’); a comunicação por um vizinho atento de que havia alguém tentando invadir uma casa alheia (esquemas de neighborhood watch são sabidamente eficazes como mecanismos de prevenção de crime); a intervenção do presidente Obama e a reação pública subseqüente indicando que questões raciais ainda dividem a América (portanto, que parece precipitada a idéia de que ela teria virado uma sociedade ‘pós-racial’ depois da eleição de seu primeiro presidente negro); e, finalmente, o ato conciliatório do próprio presidente para que tudo acabasse em pizza (ou melhor, em cerveja).

    Mas o foco deste texto está no comportamento do policial. Este foi acusado de ‘racista’ pelo professor Gates e por boa parte da opinião pública americana. Entendemos que este não é necessariamente o caso. O comportamento do mesmo pode ser perfeitamente compatível com o que se conhece por ‘discriminação estatística’ e não de preconceito racial.

    Inicialmente, vamos definir nossos termos. Chamamos uma pessoa de ‘racista’ ou, de forma mais geral, de ‘preconceituosa’ quando, independente da distribuição da população, por questões de preferências, ela faz certo julgamento sobre determinados grupos raciais ou sociais. Por outro lado, um caso de ‘discriminação estatística’ ocorre quando a pessoa utiliza uma informação apriorística sobre a distribuição de algum atributo na população e utiliza inferência Bayesiana para formar algum juízo sobre indivíduos e grupos.

    Por exemplo, uma pessoa está andando na rua e vê um grupo de jovens aparentemente cheirando cola se aproximando em direção contrária. Ela atravessa a rua, ou segura bem sua bolsa, ou tem qualquer outro comportamento no sentido de se proteger/evitar o contacto.

    Isto pode ser caracterizado como preconceito? Na minha opinião, pode ser que sim, mas pode ser que não. O comportamento ilustrado pode ser caracterizado com o que os economistas chamam de ‘discriminação estatística’. Ou seja, suponha que, na população de trombadinhas, seja maior a proporção de jovens cheiradores de cola que de senhoras brancas (por qualquer motivo: injustiças históricas, falta de oportunidades aos jovens, violência familiar, etc). Neste caso, a pessoa em questão infere (Bayesianamente) que existe uma probabilidade não desprezível de que os jovens que se aproximam pertençam a esta população.

    É claro que na prática é muito difícil dissociar um caso de preconceito de outro de ‘discriminação estatística’ porque eles são mecanismos que se realimentam. Outro exemplo para ilustrar este ponto sobre realimentação: suponha que, ou por preconceito de verdade ou por discriminação estatística, entregadores de pizza se recusem a atender certos bairros por temor de serem assaltados. Por conta deste comportamento, moradores desses bairros que desejam comer pizza passam cada vez menos a utilizar os serviços de entrega, pois percebem que várias pizzarias se recusam a trazer a pizza até seu endereço. Resultado: depois de um tempo, a proporção de assaltantes comensais de pizza que habitam o bairro se torna expressiva, confirmando o receio dos entregadores.

    Mesmo assim, acho importante tentar distinguir o que é discriminação estatística do que é preconceito. Enquanto o último é um ato condenável, o primeiro é aceitável e é base de boa parte do nosso comportamento cotidiano e mesmo de ações públicas: alfândega no aeroporto parando mais pessoas carregando laptops, receita federal utilizando informação de CPMF para colocar pessoas na malha fina, imigração de países avançados questionando mais brasileiros, seguro de automóvel mais caro para jovens, plano de saúde mais caro para fumantes, etc.

    Assim, voltando ao problema do professor e do policial, o comportamento do último pode perfeitamente revelar um exemplo de discriminação estatística. Se, na população de arrombadores de casa, o percentual de negros é significativo, o sargento Crowley apenas fez uso desta informação para inferir que poderia estar diante de um fora-da-lei. É claro que, se mesmo diante da identificação do professor Gates, o sargento insistiu na sua prisão, então, teria razão o presidente Obama ao qualificar o ato de ‘estúpido’. O ponto é que, com as informações existentes sobre o caso, não é possível qualificar o policial quer de ‘preconceituoso’ quer de ‘estúpido’. Acrescente-se que o sargento Crowley ministra cursos antirracismo a seus colegas. 

    *Márcio Nakane é economista.



    Escrito por Jumento de Tróia às 16h11
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    regras do futebol (parte 1)

    A REGRA É CLARA. MAS É BOA?

    Adriano Pitoli E Andres Rojas*

    Seria possível melhorar as regras do mais interessante e popular esporte do planeta? Para horror dos mais conservadores, sim. 

    As mudanças defendidas aqui na verdade já estão em discussão há tempos e são coerentes com a evolução das regras do futebol. O objetivo é tornar o jogo mais disputado e emocionante, mas não necessariamente aumentar o número de gols por partida.

    A história do impedimento ilustra a tendência pró-ataque das regras do futebol. Em 1870, para não configurar impedimento, era preciso três adversários entre o atacante e o gol no momento do passe. A partir de 1907, não havia mais impedimento no campo de defesa. A partir de 1925, bastava dois adversários à frente do atacante para não estar mais impedido. Desde 1990 não há mais impedimento em cobrança de lateral e o atacante também pode esperar a bola na mesma linha do penúltimo adversário.

    Fique tranqüilo. Ninguém aqui irá defender o fim do impedimento. A velha tática do bicão pra frente nunca foi o supra-sumo do futebol.

    Outras duas mudanças que melhoraram o futebol foram a proibição do goleiro pegar com as mãos uma bola recuada (em 1992) e o incentivo extra por vitória, que passou a valer 3 pontos a partir de 1994 (mas que já estava em vigor no campeonato inglês desde 1982).  

    Quem tem idade suficiente deve se lembrar que antes de 1992 as sonoras vaias da torcida a cada recuo de bola ao goleiro não chegavam a abalar o orgulho dos zagueiros.  E quanto aos três pontos? Será que realmente tiveram o efeito desejado de fazer os times não se contentarem com um bom empate?

    Fazendo um exercício estatístico relativamente simples com base no cômputo geral dos campeonatos nacionais de Itália, Alemanha, Inglaterra, Espanha e França, de 1951 a 2009, que totalizam 282 observações, a conclusão que se chega é que, talvez de modo surpreendente, após a implementação da nova regra não houve qualquer redução estatisticamente significante do número de empates, assim como aumento no número de gols por partida[1].

    Isso significa então que a regra dos 3 pontos não surtiu o efeito desejado? Não necessariamente. Uma leitura alternativa dos mesmos resultados poderia ser que o número de gols por partida seria ainda menor e o número de empates maior, caso o incentivo extra por vitória não tivesse sido implementado. Uma terceira interpretação dos resultados é que a nova regra pode ter estimulado os times a reforçarem seus sistemas defensivos, justamente para fazer frente a uma maior pressão do ataque adversário.

    Aparentemente, essas 3 leituras alternativas poderiam ser feitas também sobre o impacto de todas as outras mudanças de regras das últimas quatro décadas visando tornar o futebol mais ofensivo.

    Durante toda a década de 50, a média de gols por partida nos campeonatos italiano, inglês, espanhol e francês foi de 3,2 gols (a Alemanha passou a ter um campeonato nacional somente a partir de 1963-64). Ao longo da década seguinte, contudo, houve um contínuo recuo no número de gols, chegando a 2,5 gols por partida em 1969.

    Desde então, e lá se vão 40 anos, a média de gols por partida tem se mantido nesse mesmo patamar, com baixíssima variação de um ano para outro (ver gráfico). Entre os países, também há pouca variação. Entre 1969 e 2009, França e Espanha tiveram média de exatamente 2,5 gols por partida; Inglaterra 2,6 e Itália 2,3. Somente o campeonato alemão apresenta uma média claramente superior, de 3,1 gols.

     

    Segundo algumas análises, essa redução no número de gols entre as décadas de 50 e de 70 em diante ocorreu em virtude da própria evolução do esporte, que tem induzido sistemas defensivos mais eficientes[2].

    Se essa explicação estiver correta, a hipótese de que as mudanças pró-ataque nas regras do futebol tiveram como principal efeito prático evitar uma redução ainda maior no número de gols parece plausível (embora esses autores ainda não tenham identificado uma forma de testar estatisticamente tal hipótese).

    Essa interpretação é interessante também por fornecer um princípio geral para nortear o debate sobre novas mudanças de regras. Daria para defender que um dos principais objetivos das mudanças nas regras é o de se contrapor à evolução técnica do futebol de modo a manter um número “ótimo” de gols por partida.



    [1] Um trabalho de 2003 de Ralf  Dewenter, da University of the Federal Armed Forces Hamburg (Alemanha), identifica um resultado ainda “desfavorável” para a regra dos três pontos no campeonato Português, a qual teria provocado uma redução no número de gols.

    [2] Ver o artigo “Pelé x Romário e o custo da cesta básica” de um dos autores deste artigo, que discute as razões e algumas implicações dessa redução na média de gols, neste caso no campeonato brasileiro. http://jumentodetroia.blog.uol.com.br/arch2009-01-18_2009-01-24.html#2009_01-21_08_26_12-130782726-0

     



    Escrito por Jumento de Tróia às 22h48
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    regras do futebol (parte 2)

    Pelo fim do jogo miúdo

    É possível listar ao menos seis mudanças nas regras do futebol que poderiam tornar o esporte ainda melhor, trazendo mais dinamismo aos jogos e reduzindo o risco de erros dos ex-homens de preto influenciarem o resultado das partidas[1].

    Uma primeira dessas mudanças seria seguir o exemplo do basquete e do futsal e, em vez de fixar o tempo da partida em 90 minutos corridos (em geral acrescido em algo como 2 ou 4 minutos, com base em uma conta de padaria feita pelo juiz), assumir o critério de tempo de bola rolando, em digamos dois tempos de 30 minutos, parando o cronômetro sempre que o jogo fosse interrompido por substituição, falta, cobrança de tiro de meta, etc.

    Atualmente, a bola acaba ficando sem uso durante mais de um terço do tempo em que deveria seguir trabalhando, o que convenhamos é um convite para um cochilo diante da TV. Fixando a duração da partida pelo tempo de jogo jogado, daria para esperar uma drástica redução nas encenações por contusão, na cera para cobrar a falta (a enrolação do goleiro foi resolvida com a limitação de 6 segundos para repor a bola, decidida em 2000) e em toda a sorte de pixotagem antidesportiva. E mais tempo de bola rolando certamente tornaria o futebol mais interessante de jogar e assistir.

    Uma segunda mudança no futebol seria embarcar toda a tecnologia disponível para ajudar na difícil arte de apitar.

    Hoje, o juiz e seus assistentes se comunicam por rádio, o que certamente já trouxe avanços. Contudo, há diversas outras parafernálias que poderiam reduzir a sucessão de erros de arbitragem, desde a introdução de um chip na bola até o uso de videotape ou mesmo do “tira-teima”, cujo veredicto também seria transmitido ao juiz via rádio.

    Uma crítica que se faz é que o bandeirinha eletrônico pode não responder de forma imediata, o que exigiria a interrupção da partida. Mas se fosse adotado o tempo de bola rolando, esse problema não seria tão grave. Além disso, daria para limitar o número de vezes em que as equipes poderiam pedir a revisão do lance, a exemplo do que se faz no futebol americano.

    Outra crítica seria de que nem todos os campeonatos teriam condições de ter em seus estádios todo o aparato eletrônico. Essa limitação, contudo, também existe no tênis e nem por isso o dispositivo deixa de ser adotado sempre que possível.

    Se havia alguma graça (e não havia) nas intermináveis discussões sobre as decisões do juiz, tais polêmicas foram enterradas quando as novas tecnologias foram incorporadas às transmissões ao vivo, como o tira-teima e a multiplicação de câmeras cobrindo cada jogo. 

    O que resta hoje é a insólita situação na qual todos os milhões de torcedores que assistem aos jogos pela TV sabem quase instantaneamente se foi gol ou não, menos a pessoa que mais precisaria saber, o meritíssimo juiz.

    Embora o videotape não seja permitido pela Fifa, a TV já definiu alguns jogos importantes em competições da própria entidade. O aparelho parece ter sido utilizado pelo quarto árbitro tanto no polêmico pênalti a favor do Brasil contra o Egito pela Copa das Confederações quanto na famosa cabeçada do Zidane na final da Copa da Alemanha. Obviamente, a organização dos jogos deve deixar claro que o recurso eletrônico será utilizado em determinada competição.

    A terceira e quarta sugestões também são inspiradas no basquete.  Também para dar maior dinamismo as partidas, seria desejável forçar uma redução no número de faltas.

    O jogador de futebol, como qualquer agente na sociedade, reage a incentivos. Como atualmente poucas infrações sofrem punição – caso das faltas dentro da área e das mais duras, punidas com cartão amarelo ou vermelho desde a Copa de 1970 –, o que se vê em qualquer partida é uma seqüência interminável de faltas que não são violentas, mas que interrompem uma jogada de ataque.

    O maior prejudicado pelo clima de ranca-toco nos gramados é o craque, caçado sem tréguas, muitas vezes pelo sistema de rodízio, e impedido de exercer a sua arte.

    Mas não adianta criticar os brucutus. É preciso mudar os incentivos. O que deveria ocorrer é toda falta ter alguma forma de punição.

    Uma opção seria adotar um limite individual de faltas, após o qual o jogador deveria ser substituído. Outra opção seria fixar um limite para as faltas coletivas, a partir do qual passaria a valer o tiro livre direto ou então uma maior distância da barreira.

    O Torneio Rio São Paulo de 1997 chegou a testar o limite de faltas individuais (cinco eliminavam o atleta por cinco minutos) e coletivas (a partir da décima quinta a equipe era punida com um tiro livre sem barreira, na entrada da grande área). A idéia não prosperou, embora talvez essas não fossem exatamente as melhores opções para implementar novas punições por falta.

    Mas o que importa é que havendo alguma forma de punição para toda a falta, zagueiros e volantes pé de boi seriam obrigados a aprender a parar o ataque na bola, o que sem dúvida traria uma grande evolução na marcação. Teríamos mais gamarras e menos tonhões.

    Ainda sob inspiração do basquete, porque não ampliar o número de substituições, inclusive permitindo o retorno do jogador ao campo? Desde 1995 passou a ser permitida uma terceira substituição mas ainda é pouco.

    Uma maior flexibilidade na regra aumentaria tremendamente a emoção dos jogos. Com os atletas podendo descansar no banco e não no campo, o jogo ficaria mais dinâmico e também mais imprevisível. O papel do técnico passaria a ser muito mais importante, na medida em que as possibilidades para alternar o esquema tático se multiplicariam. Os chamados nós táticos poderiam ser mais facilmente desfeitos e refeitos. A distinção entre time titular e reserva se tornaria quase irrelevante e o surto de estrelismo habitual dos craques também diminuiria.

    Poderia haver, contudo, um efeito indesejado. A vantagem competitiva dos times mais ricos poderia aumentar ainda mais por terem condições de dispor de melhores peças de reposição. Isso pode reduzir o número de zebras, essência do futebol que o distingue dos esportes pagãos, o que pede uma avaliação cuidadosa dessa mudança. Ainda assim, os ganhos dessa nova regra parecem superar em muito os efeitos colaterais.

    Uma última decisão que deveria ser tomada é a proibição da paradinha em cobranças de pênalti. A penalidade máxima já é uma relação altamente assimétrica contra o goleiro. Agora, o atacante poder blefar na hora da cobrança enquanto o goleiro não pode avançar antes do chute já é uma covardia. Ao menos, desde 1997 o goleiro passou a poder se movimentar para os lados antes do chute.

    Por fim, resta uma regra no futebol que é a mais retrógrada de todas mas que parece a mais improvável de ser alterada, o próprio processo de mudanças nas regras no futebol.

    Em 1882, as regras do futebol passaram a ser decididas pelo International Football Association Board (IFAB), formado pelas associações nacionais de futebol de Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales e que passou a incluir a FIFA em 1913. A partir de 1958, o sistema ficou mais equilibrado, com a FIFA passando a deter quatro votos (em nome das 204 federações restantes), enquanto as 4 federações do Reino Unido mantiveram um voto cada uma.

    Porém, como mudanças exigem 6 votos favoráveis, na prática Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales têm poder de veto sobre mudanças nas regras.

    Se no século 19 isso tinha sentido, por ser o Reino Unido o berço do futebol, não há o menor cabimento em se manter esse ranço druida nos dias de hoje.

    Faz sentido o País de Gales, um lugar cujo esporte nacional é a caça ao marreco ter mais influência para mudar as regras do futebol do que Brasil, Itália, Alemanha, Argentina e Uruguai juntos, detentores de 16 títulos mundiais?

     

    Mudanças precisam ser testadas cuidadosamente

    As alterações sugeridas aqui têm como propósito tornar o futebol mais dinâmico e justo, mas não necessariamente aumentar o número de gols, embora a única sugestão que aparentemente tenha esse efeito seja a maior punição por faltas.

    Essa questão é relevante considerando que um aumento no número de gols não tornaria o futebol necessariamente mais interessante. A enorme dramaticidade envolvida na busca por um gol quando uma partida decisiva está chegando ao final só existe pela dificuldade de ser marcar um tento nesse esporte.

    Além disso, a elevação do número médio de gols tornaria mais fácil o melhor time vencer, o que também pode reduzir a emoção dos jogos.

    A média de gols por partida nos campeonatos europeus, em torno de 2,5 nos últimos 40 anos, não parece tão baixo. Se novas regras aumentassem essa média para 4 gols por jogo, por exemplo, mereceriam ser revistas.

    O que se propõe aqui, em resumo, é aumentar o nível de adrenalina de jogadores, locutores e torcedores do melhor esporte da Terra, sem jamais banalizar o ápice, o pináculo, o píncaro, o grande momento do futebol.

    *Adriano Pitoli e Andres Rojas são economistas



    [1]  Com relação a questão do modelo ótimo de campeonato – se pontos corridos ou com final – veja a opinião de um dos autores (que tem veemente discordância do outro autor) em: http://jumentodetroia.blog.uol.com.br/arch2008-07-20_2008-07-26.html#2008_07-20_23_19_46-130782726-0

     



    Escrito por Jumento de Tróia às 22h46
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    Economia não é Física

    Economia não é Física

    Gian Barbosa*

    De vez em quando, esquecemos isto, e tal esquecimento não pode ser atribuído apenas às pessoas de fora da área. Os próprios economistas insistem em perder a noção de que a economia não é uma ciência exata.

    Quanto aos que estão adorando questionar a utilidade da economia em virtude da incapacidade dos economistas de prever a atual crise financeira, tentemos apenas lembrá-los que se fosse possível tal previsão, a crise simplesmente não teria existido. Na mesma linha, não é possível sabermos quantas crises da mesma proporção foram evitadas pelos conselhos dos economistas.

    Neste sentido, colocamos muito peso nos ombros dos economistas. A economia é de todos, não apenas dos economistas. Será fácil prever o comportamento simultâneo de todos os setores e agentes econômicos? Uma hipótese fundamental para se fazer previsão é que os agentes serão racionais em suas ações. Na atual crise, todos os agentes foram racionais? Se não, como saber o momento em que há racionalidade dos agentes ou não? Como fazer previsões quando uma parte relevante do mercado não age de modo racional? Se nem aqueles que sabiam os mínimos detalhes das operações problemáticas supostamente enxergaram o problema, imagine aqueles que devem prever a evolução da economia de forma agregada.

    Quanto ao questionamento da utilidade das recomendações em política econômica, será que estas não estão conseguindo amenizar a atual crise? Como seria a sua evolução sem estas recomendações? Não sabemos. Entretanto, acredito que seria bem próxima da grande depressão de 1929, quando a teoria econômica ainda não havia dado o salto com a teoria do economista Keynes. Por sua vez, os economistas posteriores contribuíram ao demonstrar como as políticas dirigistas podem se tornar contraproducentes em momento de normalidade da economia. Outra contribuição importante foi demonstrar como os agentes econômicos reagem às ações irresponsáveis dos governantes, que ficam, assim, mais limitados para fazer grandes besteiras.

    A análise sistemática das evidências empíricas contra e a favor de cada teoria e o escrutínio do debate econômico constroem este conhecimento, embora modismos, vieses ideológicos, preconceitos e a recusa a enxergar evidências em contrário ao próprio ponto de vista sejam recorrentes em todo o espectro dos economistas.

    Alguns pesquisadores da área, apressadamente, insistem em cerra fileiras com algumas teorias e desqualificar outras como se um teste de laboratório já tivesse dirimido todas as polêmicas.

    Embora dê maior credibilidade aos argumentos em um debate, uma postura de “cientista de laboratório” é questionável, dada a impossibilidade de se criar um ambiente controlado para testes em economia, como é mais fácil de fazer na física ou na medicina. Não é possível isolar todos os fatores que influem nos movimentos econômicos. Embora as ferramentas para se promover a análise empírica tenham evoluído bastante, a econometria permanece um instrumento relativamente frágil, ancorada em hipóteses ainda excessivamente simplificadoras.

    Então, joguemos a Economia na lata do lixo? Que tal fecharmos os cursos e mandarmos os estudantes de volta para casa para fazer algo melhor, como jogar playstation? Aloquemos os atuais profissionais em atividades mais produtivas como a colheita de berinjelas, como chegaram a defender alguns?

    Fazer tal afirmação seria dizer que todos os esforços para debater e testar as teorias não servem para nada. Seria afirmar que as ciências humanas, onde a discussão é central, não traz nenhum benefício. Será? Nos processos legislativos realizados em todo o mundo, há muito debate, sendo impossível ignorar as grandes inovações que surgem de novas polêmicas levantadas.

    Em diversas situações, o conhecimento econômico consegue alcançar certos consensos, permitindo excluir (ao menos temporariamente) certas linhas de ações, que poderiam trazer mais malefícios do que benefícios. Com a evolução do debate, algumas políticas foram excluídas e as limitações de cada recomendação foram evidenciadas.

    Como exemplo, em contraste com as grandes polêmicas que marcaram a época da hiperinflação do País, parece que finalmente conseguimos chegar a um consenso não apenas com relação às causas da inflação, mas também sobre os melhores instrumentos para combatê-la. Da mesma forma, ninguém mais discute qual o melhor regime cambial para o país, se câmbio fixo ou flutuante.

    Uma agenda consensual de como combater a atual crise ainda não está concluída, mas alguns “quase-consensos” já são de grande utilidade, cabendo a cada governo decidir em que medida e em que ritmo cada recomendação pode ser realizada. 

     

    *Gian Barbosa é economista



    Escrito por Jumento de Tróia às 16h22
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    Chá contra crise (parte 1)

    SERVIÇO UM CHÁ CONTRA A CRISE?

    Adriano Pitoli*

    Uma das poucas certezas que se pode ter sobre a atual crise internacional é que ninguém tem muitas certezas de onde tudo isso vai terminar. Mesmo assim, aqui vai um palpite (ainda que de altíssimo risco): a atual crise não dura muito tempo[1].

    Mas caso a previsão que se confirme seja a dos mais pessimistas e a crise piore muito antes de melhorar, é possível que tenhamos aí um atestado mundial de incompetência dos economistas.

    A razão para o otimismo meio fora de hora vem nem tanto da confiança na classe mas da forma como se entende essa crise e, logo, das opções de política disponíveis para recolocar a economia mundial de volta nos trilhos.

    A origem de toda a confusão é bastante clara – foi forjada nos seguidos anos de excessos do mercado financeiro, sobretudo americano, onde se lucrava muito emprestando o dinheiro dos outros para financiar imóveis cada vez mais caros a pessoas cada vez mais endividadas.

    O que se vê agora, entretanto, vai muito além da explosão da bolha imobiliária, com a economia do mundo inteiro entrando em um espiral recessivo. O calote no mercado de hipotecas deixou vários bancos em situação frágil, o que comprometeu a confiança no sistema financeiro, o que travou o mercado de crédito, que retraiu o consumo e o investimento, que levou a economia para a recessão, que exportou a inadimplência para outros segmentos de crédito, que agravou a situação dos bancos, que deprimiu ainda mais a confiança, que...

    O desafio é romper o quanto antes esse círculo vicioso. Não é fácil, mas é perfeitamente possível. A razão última do otimismo é que não há nenhuma razão de fundo que obrigue o mundo a conviver com uma longa recessão.

    A crise não afetou a capacidade produtiva do mundo. As empresas não desaprenderam a produzir os bens e serviços que os consumidores desejam. Nem mesmo o mercado financeiro, o mais atingido pela crise, desaprendeu as boas técnicas de concessão de crédito, embora ninguém estivesse muito preocupado com a ressaca enquanto havia bebia à vontade.

    As razões para o otimismo seriam bem menores se esta fosse uma crise de oferta, como foi, por exemplo, a crise do petróleo da década de 70. Naquela ocasião, o mundo se deparou repentinamente como uma menor oferta da principal matéria-prima das economias industriais. Como conseqüência, os governos foram obrigados a aceitar menores níveis de produção e consumo. Agora não é bem esse o caso.

    Os empresários tampouco precisam criar um novo enredo para o seu animal spirits. Não há nada de errado com o principal motor do crescimento mundial dos últimos anos – a rápida expansão dos países emergentes. Esse fenômeno era o que a teoria econômica previa desde os seus primórdios e que finalmente vinha se materializando, com os países mais pobres, sobretudo a China, lançando na fronteira tecnológica milhões de miseráveis a cada ano.

    É evidente que o mundo não poderá passar incólume pelo estouro da bolha, como não está passando. Setores que estavam inchados, como o mercado imobiliário dos países desenvolvidos e o mercado financeiro do mundo todo, terão que passar por um regime forçado. Um grande volume de recursos econômicos alocados nesses setores terá que procurar usos mais produtivos, o que tem custo e leva tempo.

    Mesmo após a volta do crescimento mundial, o mercado financeiro será uma fração do que era antes da crise e os bônus pagos a seus executivos uma fração ainda menor.

    Outro fato consumado é a existência de uma pilha de dívidas que já nasceu pobre e jamais será paga, mesmo em um cenário de recuperação econômica. Mas isso, isoladamente, descreve mais um fenômeno de redistribuição de riquezas do que uma barreira para a reação da economia.

    Uma vez resolvida a questão patrimonial dos bancos, ou seja, decidido quem vai assumir os prejuízos entre acionistas, credores e contribuintes, não haveria nenhuma razão de fundo que impediria o mercado de crédito voltar a operar normalmente.

    Na verdade, considerando a montanha de dinheiro que os governos centrais já injetaram nos bancos, é bem possível que o problema original dos créditos podres já tenha sido bem encaminhado. Mas os bancos continuam em córner porque na medida em que a recessão se incrusta, surgem novas hordas de inadimplentes.

    Isso sugere que dificilmente haverá uma solução efetiva para a crise bancária antes de a economia começar a reagir.

    O grande desafio, portanto, é destravar o consumo e o investimento. É por isso que se pode entender a atual crise, ou ao menos o seu atual estágio, como uma crise de demanda, mais exatamente, uma crise de confiança.

    Os consumidores preferem poupar a consumir porque não sabem se terão emprego; os bancos preferem não emprestar porque não sabem se os devedores terão como pagar e; as empresas preferem não investir porque não sabem se terão consumidores.

    Muito antes de Nouriel Rubini, esse remake dos anos 30 parece ter sido previsto, de maneira um pouco mais cifrada, por um autor que – apesar de sua vasta obra e de ser visto com freqüência nas imediações da Faculdade de Economia da USP, em companhia de alguns professores – nem sequer chegou a se matricular no curso. Seixas (1977) formalizou o problema que eclodiria somente após a sua morte da seguinte forma:

    Foi assim

    No dia em que todas as pessoas

    Do planeta inteiro

    Resolveram que ninguém ia sair de casa

    Como que se fosse combinado em todo o planeta

    Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém[2].

    O problema é que, individualmente, cada agente está sendo absolutamente racional em tornar-se mais conservador, mesmo sabendo que no coletivo tal comportamento preserva a mesma sabedoria de um bando de vacas indo pro brejo.

    Ironicamente, a falta de demanda efetiva foi durante os últimos 80 anos considerada um problema menor para a maior parte dos economistas. Afinal, normalmente não há grandes dificuldades para encontrar gente interessada em consumir. O desafio sempre foi achar gente disposta a trabalhar.

    Para os economistas mais empolgados com a beleza dos mercados, o problema da demanda efetiva nem sequer existiria. Para outros tantos, estaria sempre ao alcance dos bancos centrais reduzir os juros até que um nível adequado de consumo e investimento fosse restabelecido.

    Isso apesar de o velho Keynes já ter enxergado, ao assistir pela janela a grande depressão, que em situações em que a confiança desaba pra valer, não há redução de juros que traga de volta o ímpeto de consumir, fenômeno que foi batizado como a armadilha da liquidez.

    Talvez fosse mesmo o caso de se questionar dos macroeconomistas o que de tão relevante eles andaram se ocupando nas últimas décadas se na hora que o mundo realmente precisa deles é preciso requentar idéias de 80 anos atrás.



    [1] Malemolentemente, não será definido aqui o que se entende por “muito tempo”.

     

    [2] Seixas, R (1977). “O Dia em que a Terra Parou”. WEA/Warner Bros. Em co-autoria com Cláudio Roberto. 



    Escrito por Jumento de Tróia às 00h47
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    Chá contra crise (parte 2)

    Incentivos para os agentes traírem a manada

    Mesmo com seus conselheiros econômicos absolutamente atordoados, os governos de todo o mundo seguem tateando em busca de receitas para vencer a crise econômica.

    Além de um punhado de trilhões injetado nos bancos, estão sendo postas em marcha a ecumênica política de expansão monetária e uma reabilitada política keynesiana de expansão de gastos públicos.

    Contudo, há grandes dúvidas se essas duas políticas anticíclicas terão força para levar a economia de volta à normalidade. Enquanto a política monetária nos países desenvolvidos perde eficiência com os juros tão próximos de zero, a política fiscal também possui uma lista de restrições.

    Os gastos podem virar puro desperdício devido à escolha infeliz dos investimentos, corrupção ou simples incompetência do planejador central. Excesso de gastos no presente pode trazer desequilíbrio das contas públicas no futuro. Os projetos podem demorar muito para sair do papel.

    O que se discute menos, mas que poderia trazer uma importante contribuição para resgatar a economia são medidas para incentivar os agentes a assumirem um comportamento anticíclico, rompendo o pacto com o restante da manada. Como denominador comum, essas medidas teriam vigência temporária, durante o período mais crítico da crise de demanda.

    Uma frente seria incentivar os consumidores e empresas a anteciparem suas decisões de consumo e investimento, visando contrabalançar a influência da crise sobre as decisões econômicas na direção exatamente oposta.

    Na verdade, algumas medidas nessa linha já vêm sendo tomadas mesmo no Brasil, com resultados aparentemente positivos, como é o caso da redução por 90 dias do IPI sobre os automóveis, feito pelo governo federal, e a redução de ICMS sobre máquinas e equipamentos por um ano, decidida pelo governo do Estado de São Paulo.

    Mas como essas, várias outras medidas de incentivo ao comportamento anticíclico dos agentes poderiam ser tomadas, fazendo com que em seu conjunto tenham um efeito relevante para combater a crise.

    Uma dessas medidas poderia ser reduzir temporariamente os impostos sobre as operações de crédito, como o IOF, o que teria a vantagem de não privilegiar nenhum setor em especial, crítica feita à redução do IPI sobre os automóveis.

    Ainda assim, tais distorções podem ser vistas como um problema de segunda ordem, um mal necessário para conduzir a economia de volta aos trilhos, do mesmo modo como é tolerada a injeção de montanhas de dinheiro nos bancos em dificuldade.

    Ademais, os incentivos para o comportamento anticíclico precisam ser dirigidos para o consumo de bens que realmente tem a sua demanda ditada por uma decisão intertemporal, como é o caso dos bens de consumo duráveis e dos bens de capital.

    Por esta razão, talvez fosse desejável implementar uma política ainda mais agressiva de redução temporária de impostos sobre esses dois tipos de bens, incluindo IPI, PIS/Cofins e ICMS.

    Para aqueles que ainda estão incomodados com o privilégio dados a alguns setores, uma medida simples resolveria a questão. Bastaria que a carga tributária desses produtos fosse superior a média dos outros bens nos períodos de expansão econômica, de modo a neutralizar os benefícios especiais dados em períodos de recessão.

    Outra medida para incentivar os agentes a traírem o restante da manada poderia ser a criação de um sistema de crédito tributário para as instituições financeiras que elevassem a sua exposição ao crédito durante períodos de retração.

    Esta seria uma medida mais eficiente e saudável do que a seguida pelo Brasil de forçar um aumento da exposição dos bancos públicos no crédito durante a crise, enquanto os bancos privados correm para se proteger, intensificando o temporal.

    Na mesma linha, seria possível conceber também um sistema de crédito tributário para as empresas que preservassem ou expandissem o nível de emprego durante os períodos de contração econômica.

    Esta também seria uma política mais saudável do que a pressão que o governo federal vêm fazendo sobre empresas que programam demissões. Alguns setores serão obrigados a encolher e tentativas de preservar empregos fazem pouco sentido nesses casos.

    Mas para a economia como um todo, o incentivo anticíclico para a manutenção do emprego pode funcionar, como forma de evitar o efeito multiplicador do desemprego.

    Uma grande vantagem de medidas como estas duas últimas é que o poder do incentivo ao comportamento anticíclico pode ser tão forte quanto se queira. Basta escolher o múltiplo de crédito tributário a ser concedido no futuro para um determinado patamar de crédito concedido ou emprego preservado durante a crise.

    A despeito da real capacidade dos governos em debelar a crise, não se pode descartar, como numa continuação do sonho do Maluco Beleza, que as pessoas, do planeta inteiro, voltem a sair de casa, o padeiro pra fazer pão, o consumidor pra comprar carro e o banqueiro para emprestar, tão repentinamente quanto pararam.

    *Adriano Pitoli é economista

     



    Escrito por Jumento de Tróia às 00h43
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    Lei de incentivo cultural

    CULTURA PARA OS CULTOS

    *  Andres Rojas

    Apenas 6 semanas após seu lançamento, o filme "Se eu fosse você 2" já tinha sido assistido nos cinemas por mais de 4,7 milhões de pessoas. Tendo liderado a bilheteria nas suas primeiras semanas de exibição, este filme deve em breve ultrapassar o público que assistiu a "Dois Filhos de Francisco" de 2005 e se tornar o filme brasileiro mais assistido na Retomada – como é denominado o período a partir de 1995 quando filmes brasileiros voltam a ser produzidos com a ajuda estatal.

    Desde 1995 o mercado cinematográfico nacional cresceu consideravelmente. Segundo dados da Ancine[1], em 1995 apenas 13 filmes brasileiros foram lançados. Já no início desta década foram em torno de 30, e mais recentemente, em 2007, quase 80. Em termos de público, estamos falando de algo próximo a 3 milhões de pessoas em 1995 e 10 milhões nos últimos anos. Em 2003, melhor ano em termos de espectadores, o público ultrapassou 21,5 milhões, puxado por Carandiru. É importante notar, contudo, que houve uma evolução mais acentuada do número de filmes do que do público.

    Este boom das produções nacionais é ancorada, principalmente, nas leis de incentivos[2] ao cinema que permite a captação de recursos junto às empresas para o financiamento dos filmes. De 2005 a 2007, a grande maioria dos filmes, mais de 80% do total, captou dinheiro através dessas leis[3].

    É possível identificar dois papéis principais para as leis de incentivo: (i) como o próprio nome diz, é o de incentivar as artes para o “consumo do povo”; e (ii) a possibilidade de captação seria uma forma de corrigir a assimetria no mercado de crédito. Primeiro, é analisado o resultado da captação sob a perspectiva do financiamento. Posteriormente, sob o fomento à cultura.

    De fato, tomar emprestado no mercado financeiro recursos para a elaboração de uma obra cinematográfica ainda não deve ser lá muito fácil, o que é compreensível pelo alto risco do investimento.

    Os números da Ancine evidenciam isso. Dos 161 lançamentos que de 2005 a 2007 captaram recursos através das Leis de Incentivo, apenas 20, ou pouco mais de 10%, obtiveram bilheteria superior ao volume captado, sendo a Lei do Audiovisual (8685/93) a principal fonte dos recursos para a indústria cinematográfica. Embora seja verdade que os filmes possuem também outras fontes de receita, como direitos de transmissão pela TV, por exemplo, o mesmo vale com relação à fonte de financiamento.

    De todo o modo, uma conclusão parece ululante. As Leis de Incentivos acabam inflacionando a produção do cinema nacional, permitindo a produção de filmes sem qualquer viabilidade comercial. Desta forma, sem as leis de incentivo um número menor de filmes seriam produzidos. Uma pergunta um pouco mais difícil de responder é se isso é bom ou ruim?

    É inegável que promover investimentos públicos em cultura traz externalidades[4] positivas para a sociedade, aumentando o bem-estar, o que justifica o subsídio público – o que, aliás, é atestado pelos próprios manuais de microeconomia. Este argumento, contudo, não dispensa uma rigorosa, mas sempre difícil análise de custo-benefício. Ou seja, o ganho para a sociedade deve ser superior ao volume de dinheiro pago pelo contribuinte injetado nas produções culturais via Lei de Incentivos.

    Aqui de pouco adianta as teses de que não se pode medir o benefício proporcionado pela cultura em termos das vis unidades monetárias. Como os economistas são (ou pelo menos deveriam ser) treinados a pensar desde as primeiras aulas do curso de microeconomia, não existe almoço grátis, ou como dizem lá “there’s no such thing as a free lunch[5]. Mais dinheiro público para cultura implica sempre, em qualquer ponto do tempo e do espaço em menos dinheiro para saúde, educação, segurança e transporte.

    Quando se olha o resultado obtido pelo dinheiro público investido, há sim razões para se suspeitar de que o ganho social talvez não esteja sendo alto o suficiente para justificar o dinheiro dos contribuintes investido.

    De 2005 a 2007, segundo a Ancine, quase 70% dos filmes produzidos no País não chegaram a 50 mil espectadores. Ou se preferir, quase 45%, o que representam mais 80 obras, não registraram 10 mil pagantes. Existem alguns que não foram assistidas nem por mil pessoas (13,5%).

    Dois filmes não foram vistos nem por 100 testemunhas (vou preservar os títulos, embora ninguém vá conhecer mesmo). Vale destacar que um deles, com público de 21 pessoas, captou mais de R$ 400 mil. Isso mesmo, quatrocentos mil reais para fazer um filme que nem os próprios parentes dos que produziram tiveram a coragem de pagar para assisti-lo no cinema.

    O custo de toda a brincadeira para os cofres públicos, isto é, o valor captado para a produção do cinema tupiniquim desde o início da Retomada foi de pouco mais de R$ 2 bilhões a preços do final de 2008.

    Para continuar bancando estes filmes, a externalidade deve ser brutal, pois claramente a demanda não é lá essas coisas. Mas, será que é o povo, de fato, quem tem acesso a essa forma de cultura, para que houvesse, de fato, um ganho expressivo em externalidades?

    Talvez sem grandes surpresas, segundo a Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE de 2002/03, apenas pouco mais de 3% dos brasileiros declararam ter gasto dinheiro com o cinema durante o último mês pesquisado.

    Mais importante do que o percentual de brasileiros que freqüentam o cinema, vale destacar o perfil deste consumidor. Em média, o freqüentador de cinemas no Brasil tem 11,3 anos de estudo, mais de duas vezes daqueles que não vão. O mesmo ocorre com a renda, a dos que afirmam freqüentar cinemas é quase três vezes dos que não vão.

    Portanto, o incentivo governamental ao cinema, que deveria disseminar a cultura, não atinge o povo. Pelo contrário, se beneficia alguém são os de nível educacional mais elevado, que seriam, provavelmente, os mais "cultos", e os que, pelo rendimento, podem ter acesso à cultura sem auxilio da ajuda estatal. Será que as leis de incentivo ao cinema estão atingindo seus objetivos?

    * Andrés Rojas é economista

    Agradecimentos a Andrea Curi e Adriano Pitoli pelos comentários e sugestões.



    [1] http://www.ancine.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=203.

    [2] As principais Leis de Incentivo ao Cinema são a Lei do Audiovisual (Lei nº 8685 de 1993) e a Lei Rouanet (Lei nº 8.313 de 1991). Ambas permitem às empresas que investirem em projetos culturais, neste caso em filmes, a dedução no imposto de renda de parte dos valores despendidos.

    [3] Não fica claro se é a principal fonte de financiamento dos filmes.

    [4] São impactos positivos (benefícios) ou negativos (custos) gerados pelas atividades de um agente sobre outros que não participam da decisão da ação. Por exemplo, seu vizinho que escuta música alta o dia inteiro lhe gera externalidade positiva, caso goste das canções escolhidas por ele, ou negativa, caso contrário. Como uma externalidade positiva provê benefícios não só a quem participa da ação, é razoável o subsídio para que se consuma/produza o nível ótimo do produto ou serviço.

    [5] Frase colocada em frente a restaurantes do meio-oeste americano no século XIX para forasteiros desavisados que não vinculavam o almoço de graça ao consumo compulsório da bebida, imortalizada pelo economista Milton Friedman.



    Escrito por Jumento de Tróia às 14h54
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    Enade x Provão

    AVALIAÇÃO: GOSTAR NINGUÉM GOSTA, MAS DEVE-SE FAZER

     

    Adriano Pitoli*

    Recentemente foram noticiados dois importantes fatos para os que se interessam pela educação do País, ambos relacionados ao processo de avaliação do ensino superior. O primeiro refere-se às bem-vindas, embora insuficientes, mudanças nas regras do ENADE – o atual exame de final de curso do Ministério da Educação. Na contramão desses esforços, contudo, circulam no Congresso projetos de lei apoiados por instituições de ensino privadas visando proibir a divulgação pública dos rankings baseados no ENADE.

    Estas notícias, lamentavelmente, mereceram pouca atenção da mídia. O assunto, contudo, é da maior relevância. Não é exagero afirmar que turbinar as avaliações é o melhor meio para retirar o ensino superior da situação atual de baixa qualidade, problema que não se limita às instituições privadas, como bem sabe quem já passou pelos bancos de uma universidade pública, mesmo no caso da USP, considerada a melhor do País.

    Um dos principais motivos dessa deficiência advém de um problema conhecido entre economistas como informação imperfeita.

    Por diferentes razões, o candidato ao ensino superior possui poucas condições de avaliar a qualidade das diferentes instituições de ensino em que poderia estudar e, consequentemente, de fazer a melhor escolha possível. Na prática, a reputação que as escolas desfrutam pode ficar descolada da realidade das salas de aula, escorada em parâmetros duvidosos, como a tradição da instituição, o fato de ser pública ou até o volume de publicidade gasto. O resultado final desta incapacidade do cliente em selecionar os melhores cursos é que as instituições acabam ficando lenientes com a qualidade.

    O mérito dos sistemas de avaliação é justamente gerar informação confiável sobre a qualidade dos cursos, e a utilidade disso vai muito além de permitir um correto diagnóstico das condições de ensino. A própria avaliação pode se tornar o principal instrumento para induzir uma melhora na qualidade dos cursos. Isto porque, enquanto as instituições mais bem colocadas no exame se beneficiam ganhando maior prestígio, as mal colocadas acabam tendo a sua reputação desgastada ao longo do tempo, forçando-as a reagir sob pena de perder alunos e receita.

    O mais interessante sobre a divulgação pública das notas de cada instituição é que a literatura econômica demonstra que sistemas de rankings, em particular, têm o potencial de fazer com que mercados afetados por informação assimétrica operem de modo eficiente[1].

    Há uma percepção generalizada, mesmo entre estudiosos do tema, que as avaliações são importantes sobretudo para identificar as instituições de pior qualidade. Equívoco. O risco de ficar de fora das primeiras colocações do ranking induz uma poderosa pressão também sobre as instituições de ponta, inclusive as públicas. Nessas, um dos maiores problemas é o baixo nível de dedicação e até mesmo o descaso de uma minoria não tão pequena de seus ilustres doutores.

    Mas sob o risco de ver abalada a reputação de sua instituição como centro de excelência, os próprios docentes tendem a deixar de lado o conforto corporativo e pressionar seus colegas menos dedicados. Ou seja, mesmo com leis permissivas concedendo estabilidade no emprego aos tão famosos picaretas, há muito o que as instituições públicas podem fazer para forçar um maior comprometimento dos seus docentes.

    Contudo, caso seja aprovado o projeto de lei que veda a divulgação pública dos rankings, avaliações como o ENADE deixariam de desempenhar o papel crucial de afetar a reputação dos cursos, deixando de funcionar como um incentivo para que as instituições travem uma saudável competição por qualidade.

    A oposição às avaliações, porém, não é limitada às instituições privadas. As universidades públicas e entidades estudantes possuem tradição de se opor aos exames. E como os maiores beneficiários da melhora da qualidade do ensino superior estão dispersos pela sociedade – que poderia contar com melhores médicos, advogados, economistas, engenheiros e filósofos –, não se observa a mesma capacidade de mobilização a favor dos programas de avaliação.

    Como (parcial) boa notícia, o presidente do INEP (órgão do Ministério da Educação responsável pelas avaliações), Reynaldo Fernandes, anunciou recentemente que a partir de 2009 o ENADE passará a ser aplicado a todos os alunos concluintes dos cursos.

    Ao substituir o antigo Provão, em 2004, o ENADE passou a ser ministrado apenas para uma amostra de alunos de cada instituição, além de estabelecer um rodízio entre os cursos de modo que cada área fosse avaliada a cada três anos.

    Menos mal que tenham sido necessários cinco anos para o governo Lula reconhecer que a mudança havia sido para pior – numa das mais demoradas demonstrações veladas de mea culpa do atual governo. Era mesmo óbvio que os alunos agraciados no sorteio não teriam lá grandes razões para levar a prova muito a sério, o que afetou a credibilidade do exame.

    Na verdade, desde a época do Provão, quando o exame era universalizado, o incentivo para se dedicar seriamente ao exame já era insuficiente, dado que a nota individual nem sequer entrava no histórico escolar (graças ao lobby da UNE junto ao Congresso motivando a derrubada deste dispositivo da lei que estabeleceu o Provão). Mas com a introdução do sorteio ficou ainda menor.

    Apesar de positiva, contudo, a mudança ainda é insuficiente. Para que o ENADE volte a ter o peso que o Provão vinha conquistando como indutor de melhoria de qualidade dos cursos, é fundamental que o exame também volte a ser aplicado a todos os cursos anualmente. Mantendo-se o modelo trianual, os alunos devem continuar fazendo pouco caso do exame, já que o ganho de ir bem na prova é nulo. Afinal, uma nota alta só diz alguma coisa caso os seus pares também a façam!

    Caso o exame de final de curso volte a ser obrigatório a todos os todos os formandos, os alunos teriam todo o interesse não apenas em levar o exame a sério mas sobretudo em se preparar adequadamente para a prova, inclusive exigindo aulas melhores.

    Há razões de sobra para se esperar essa mudança radical na postura dos alunos. Havendo credibilidade no sistema de avaliação, seria natural que, ao longo do tempo, a nota do exame passasse a contar em processos de seleção da pós-graduação, em concursos públicos, no credenciamento para o exercício da profissão – substituindo com vantagens exames da própria classe, como no caso da OAB, por exemplo –, e mesmo nos processos seletivos das empresas.

    De mérito, o governo Lula introduziu algumas inovações positivas no ENADE. Uma foi alterar a forma de atribuição da nota às instituições de ensino, que antes era meramente classificatória e passou a dispor de um valor absoluto. Na época do Provão, não era possível saber, por exemplo, se a escola com nota A realmente possuía um curso de qualidade ou se era apenas não tão ruim quanto as demais.

    O segundo avanço foi incluir os calouros no exame, o que permite identificar quanto o desempenho de cada instituição se deve à qualidade do curso propriamente e quanto decorre da qualidade dos alunos que são selecionados. É verdade que, esta inovação, ainda que positiva, vem recebendo duas críticas. A primeira é de que esta prova inicial não seria necessária uma vez que o ENEM já mede a qualidade do aluno que conclui o ensino médio. A segunda crítica é de que as instituições poderiam estimular seus alunos a “irem mal” nesta primeira rodada do exame já que, ao aplicar a mesma avaliação aos formandos, o ENADE identificaria um aumento, ainda que artificial, do valor adicionado gerado pelo curso, beneficiando a nota da instituição.

    Mesmo com esses avanços, o saldo líquido do ENADE em relação ao antigo Provão, contudo, é francamente negativo.

    De todo o modo, essas inovações servem como exemplos de como é sempre possível aperfeiçoar os sistemas de avaliação existentes. Já a opção por condenar os métodos de avaliação atuais em virtude de suas eventuais limitações e defeitos não parece o caminho mais promissor para melhorarmos a qualidade da educação no País. Estudo que fizemos em 2004, por exemplo, mostrou que, apesar de suas limitações, o Provão estava induzindo um maior esforço das instituições de ensino em programas de melhoria de qualidade[2].

    O ideal é que haja uma multiplicidade de sistemas de avaliação influenciando a reputação das instituições de ensino. Nesse sentido, aferir, por exemplo, a adequação das instalações e a titulação dos docentes, como também faz o MEC, continua importante. Contudo, medir e divulgar sistematicamente o produto final gerado pelas instituições de ensino – o grau de aprendizado de seus alunos – é o que realmente permitirá um salto na qualidade da educação superior no País.

    Com poucas mudanças adicionais nas atuais regras, o exame de final de curso tem potencial para gerar os incentivos corretos para que tanto as instituições de ensino quanto os estudantes levem suficientemente à sério a formação profissional de nível superior no País. Para tanto, é necessário ainda que o governo de plantão não insista em virar do avesso as regras e o nome do exame, política que, além de deselegante e juvenil, impede que os sistemas de avaliação se consolidem, principalmente quando as mudanças são para pior.

     

    Adriano Pitoli é economista



    [1] Ver, por exemplo: i) A comparison of tournaments and contracts, de Jerry R Green e Nancy L Stokey. Journal of Political Economy, 1983 e ii) Prices and Incentives: Towards a General Theory of Compensation and Competition, de Barry J. Nalebuff e Joseph E. Stiglitz. Bell Journal of Economics, 1983.

    [2] O problema da assimetria de informação no mercado de cursos superiores: o papel do Provão. Adriano Pitoli. Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), 2004. Ver em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12138/tde-09082004-124030/



    Escrito por Jumento de Tróia às 19h31
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    Pelé x Romário

     PELÉ x ROMÁRIO E O CUSTO DA CESTA BÁSICA

     

    Andres Rojas e Bruno Oliva*

    Em 1° de outubro de 1977, segundo a maioria dos especialistas, o maior jogador de futebol encerrava sua carreira. Pelé participou[1] de 1.376 jogos e fez 1.284 gols, tendo uma média de 0,93 gols por jogo. Naquele mês, o custo da cesta básica na cidade de São Paulo era de Cr$ 607,84[2].

    Já em março de 2008, Romário encerrou a carreira. Segundo suas contas teria feito pouco mais de 1.006 gols. Ao final do primeiro trimestre em 2008, a cesta básica era adquirida por R$ 223,90.

    Duas perguntas em relação a estes valores podem ser feitas: (i) o custo da cesta básica aumentou?; (ii) quem marcou mais gols, Pelé ou Romário?

    A primeira pergunta ninguém é capaz de responder com certeza sem corrigir os valores monetariamente. A resposta para a segunda é, em geral, Pelé.

    A motivação para a dificuldade de se responder à primeira pergunta deve-se às mudanças observadas na economia nos últimos 30 anos, que fez do Brasil uma verdadeira caixinha de surpresas. Neste período a inflação no país foi de assustadores 1,6x1014% (ou 160 trilhões por cento), segundo o IPC-Brasil (da FGV). Como conseqüência dessa várzea monetária, o brasileiro viu o nome de sua moeda mudar seis vezes, com 12 zeros cortados, resultado de diversos planos de estabilização. Sendo assim, ninguém se atreve a responder, de bate pronto, quando a cesta básica era mais cara.

    No entanto, com um pouco de paciência, utilizando índices de preços adequados e a conversão das moedas no período, podemos resolver a dúvida. O valor da cesta básica de outubro de 1977, corrigido pelo IPC-Brasil, corresponde a R$ 330,81, a preços de março de 2008. Isto é, o custo da cesta básica no mês em que Pelé encerrou a carreira é superior ao de março de 2008, descontando a inflação. Desta forma, podemos responder a primeira pergunta de forma negativa, ou seja, o custo da cesta básica era maior na época de Pelé.

    O processo utilizado para a comparação dos valores da cesta básica entre dois períodos de tempo é muito comum para vários outros valores da economia. Em vez de utilizar os valores nominais ou correntes da época, costuma-se deflacioná-los utilizando algum índice de preço, obtendo, desta forma, valores "reais". A partir daí é possível a comparação dos valores observados.

    Voltando à segunda pergunta, ao responder olhando apenas os gols marcados, o que se costuma fazer, afirmaríamos que Pelé teria feito mais gols que Romário. No entanto, desta forma estaríamos apenas fazendo uma comparação nominal e não real. Ao proceder dessa maneira não consideramos as mudanças no futebol, assim como fazemos com os valores da economia. Além disso, as estatísticas dos gols de ambos são um pouco controversas, desta forma se coloca no mesmo saco tentos marcados em amistosos, jogos festivos e outros não relacionados ao futebol profissional - como os gols de Pelé nas forças armadas e os de Romário nas categorias de base.

    Isto é, temos que definir duas questões antes de responder quem foi o maior artilheiro: (i) qual o critério para o classificar o gol válido; e (ii) como comparar tal critério ao longo do tempo ou qual deflator usar.

    Suponhamos que o número de gols declarados seja o critério considerado. Então, qual seria um bom deflator para a mensuração dos gols dos jogadores profissionais (outros poderiam ser imaginados). Para este exercício, vamos considerar o número de gols por jogo em cada época. De 1957 a 1974, a média de gols por jogo nos Campeonatos Paulistas, principal competição disputada pelo Rei[3], foi de 3,12. Já de 1986 a 2007, anos em que o Baixinho estava em atividade, a média de gols por jogo do Carioca, foi de 2,54[4], muito semelhante à média do campeonato brasileiro no mesmo período[5]. Ou seja, a média de gols por jogo era superior quando o Rei jogava e não é preciso ser nenhum grande econometrista para afirmar que o mesmo jogador teria maior probabilidade de marcar gols naquela época do que recentemente. Em outras palavras, era mais fácil balançar o capim no fundo do gol dos adversários.

    A redução do número de gols por jogo, de quase 19%, ocorreu, em boa medida, em virtude das mudanças observadas no futebol, como se verá mais à frente. Já Romário teria feito 21,5% de gols a menos que Pelé, em valores nominais. Se utilizássemos este "deflator", haveria quase um empate técnico. Seguindo esta metodologia, caso Pelé tivesse jogado na mesma época do Romário, o Rei teria balançado as redes "apenas" 1.045 vezes, 39 a mais que o Baixinho.

    Outro critério adotado, considerado por estes autores o mais correto, para responder à pergunta inicial poderia ser o número de gols em partidas oficiais. Ou seja, partidas válidas por alguma competição. Pode-se dizer que de modo geral os amistosos não são disputados com a mesma seriedade e o número de gols costuma ser mais elevado. Não parece mesmo justo que um gol marcado em jogo de solteiros contra casados conte o mesmo que um gol de campeonato. Além disso, o critério proposto reduz a interferência das contagens pessoais, como a inclusão de jogos como amador.

    Segundo a Recreation Sport Soccer Statistics Foundation (RSSSF), que disponibiliza um site com inúmeras estatísticas sobre o esporte bretão (www.rsssf.com), Pelé teria feito 756 gols em 827 partidas, já o "Pexe" 771 em 993 pelejas. Isto é, considerando valores nominais, Romário seria maior artilheiro. Corrigindo estes valores pelo número médio de tentos por partida, a diferença pró "Pexe" aumentaria ainda mais (771 contra 615).

    Os defensores do Rei poderiam continuar insistindo, alegando que ele era mais eficiente, com média de 0,93 gols por jogo oficial contra 0,78 do Baixinho. Esta comparação, porém, é novamente de caráter nominal e não consideraria a evolução do futebol. Se levarmos em consideração a média de gols por período, a média de gols de Edson Arantes, ajustado para o período do Romário, teria sido de 0,74.

    Ou seja, deflacionando a média individual de gols pela média de gols por jogo, Romário poderia ser considerado mais matador que Pelé.

    Os fãs de Pelé que tenham ficado convencidos de que ele não foi o maior artilheiro da história do futebol brasileiro ainda devem estar dizendo que mesmo assim ele ainda é o Rei, o maior jogador de todos os tempos. Seria isso verdade mesmo?

     

    Viés saudosista

    Nos esportes individuais, tais como atletismo e natação, o tempo realizado por prova define qual atleta venceu uma competição e, além disso, permite a comparação entre resultados que não foram disputados simultaneamente. Por exemplo, Usain Bolt bateu dois recordes mundiais na última Olimpíada. Ao menos até que novos exames de doping sejam realizados, ele é o homem mais rápido do mundo até hoje. Ou seja, o seu rendimento pode ser comparado com o de outros atletas em outras épocas.

    Assim como o futebol, os esportes individuais também passaram por evolução e os tempos baixaram, pois a preparação dos atletas evoluiu sobremaneira. Até o maiô na natação evoluiu e passou a fazer a diferença. Por esses motivos, a comparação ao longo do tempo apenas olhando para os resultados, embora menos dúbia do que esportes de confrontamento, também é problemática. Comparar apenas os tempos de Phelps com os de Mark Spitz pode levar a conclusões equivocadas, a menos que seus tempos sejam deflacionados pela evolução no treinamento dos atletas.

    Diferentemente desses esportes, o futebol não tem apenas uma medida quantitativa, como o número de gols, que possa definir qual o melhor atleta. Isto torna a discussão ainda mais complicada. Porque, além da falta de um deflator único, falta uma medida quantitativa global que reflita a qualidade do jogador de futebol.

    Como vimos, o número médio de gols por partida recuou entre os períodos analisados, resultado da evolução do futebol. Ou da involução para muitos. Afinal, não são poucos os que, concordando com Alberto Helena Júnior, acham que o futebol mudou para pior. Mas, a redução do número de tentos deve ser reflexo da maior preocupação defensiva recente e, principalmente, da melhor preparação física dos atletas.

    Como publicado na Veja de julho de 2002 [6], na década de 70, os jogadores corriam de 3 a 5 quilômetros a cada peleja. Atualmente, corre-se em média de 9 a 12, ou seja, mais que o dobro de antigamente.

    Ora, como a dimensão do campo não foi alterada, a marcação se tornou mais cerrada, surgiram Mineiros e Josués, Amarais e Flávio Conceições, o que, sem dúvida alguma, tornou o jogo mais difícil. Isto em parte é refletido na redução da artilharia.

    Para exemplificar a diferença, imagine se seria possível hoje, um volante, como o Clodoaldo, driblar lentamente quatro jogadores italianos no meio de campo numa final de Copa do Mundo. Agora, ponha-se na pele de um Zidane qualquer enfrentando a seleção italiana na Alemanha. Passar por Perrota, Camoranesi, Pirlo e, ai meu Deus, Gattuso não parece tarefa tão fácil assim.

    Apesar disso, há muitos jornalistas esportivos, principalmente os saudosistas, que acreditam que os jogadores de hoje "são inferiores tecnicamente aos do passado". Afirmação um pouco contraditória com o fato do espaço que o jogador tem hoje para desenvolver tais jogadas ter se reduzido. A verdade é que não há mais espaço pra tais feitos ou como dizem por aí: "não tem mais time bobo, amigo!"

    Na mesma reportagem da Veja, o médico paulista, especialista em medicina esportiva, Victor Matsudo afirma: "Pelé era considerado excepcional pela musculatura que tinha. Se entrasse em campo hoje não seria sequer notado".

    Assim, para podermos fazer qualquer comparação entre quem seria o melhor jogador de todos os tempos, deveríamos ser obrigados a levar todos esses condicionantes em consideração.

    Mas, então, o que explicaria a superioridade do Rei para que seja considerado o melhor de todos os tempos?

     

    O saudosismo até dos que não tem saudade

    Aqui vai mais uma divagação dos autores que acham que é extremamente difícil comparar atletas de décadas distintas. Certa vez lemos no blog de Roberto Vieira[7]: "Cristiano não amarraria as chuteiras de Eusébio".

    Confessamos que pouco sabemos sobre o Pantera Negra, apenas que jogou de 1960 a 1977 e foi um dos destaques da Copa de 1966. Agora, imaginamos que para alguém fazer esse tipo de comparação deva ter visto alguns bons jogos dos dois players.

    Veremos se isso faz sentido. Bom, para ser capaz de julgar o futebol do velho craque lusitano é necessário ter visto mais jogos, além dos transmitidos da copa de 1966. Para tanto, o blogueiro deveria ter visto algumas partidas da época do Benfica. No entanto, seria necessário ter morado na Europa, pois naquela época a ESPN não transmitia o campeonato português e a Copa dos Campeões para o Brasil. Sem contar que a penetração dos televisores entre os domicílios na década de 60 não era lá essas coisas.

    A título de curiosidade: Roberto Vieira é médico oftalmologista e escritor pernambucano. Deve ter entre 44 e 45 anos. Ou seja, durante a Copa de 66, tinha entre 1 e 2 anos.

    Em suma, se ele não morou em Portugal nesse período, dificilmente deve ter visto mais de 10 jogos do Pantera Negra. O máximo que pode ter visto são os melhores lances no Youtube.

    Já hoje é possível ver praticamente todos os jogos do recém eleito melhor do mundo. Ver tanto seus gols, quanto suas firulas e, principalmente, os pênaltis perdidos em partidas decisivas.

    Resumindo, a comparação, além de não considerar a evolução do futebol, deve ter sido realizada olhando apenas os melhores momentos de Eusébio, o que distorce um pouco a realidade.

    Talvez possamos estar enganados quanto ao caso em questão e, de fato, Roberto Vieira ter assistido a dezenas de jogos de ambos. No entanto, de maneira geral, estas comparações ocorrem com poucas informações e uma visão romantizada dos atletas das décadas passadas.

    Outro exemplo, que corrobora esta percepção é o famoso gol do Rei na Rua Javari. Embora este estádio tenha capacidade para apenas 3 mil pessoas, diversos cronistas desportivos afirmam tê-lo visto. Vale lembrar que não há imagens deste gol.

    Em suma, como os registros de imagens e as transmissões eram bem menos freqüentes quando Pelé desfilava nos gramados, o surgimento de mitos era mais fácil.

    Para concluir, a intenção não é desconsiderar os atletas de um futebol menos competitivo, mas identificar que a comparação entre atletas de períodos muito distantes é praticamente impossível. Acredito que se possa afirmar que Pelé foi o melhor de sua geração, assim como foi Maradona nos anos 80, e mais, recentemente, Zidane e Ronaldo (os autores não chegaram a um consenso[8]).

    Como economista, diríamos que o problema é a falta de um deflator (tal como um índice de preço para séries econômicas) que permitam tais comparações. Ninguém consegue responder quão bom Pelé seria hoje.

     

    * Andres Rojas e Bruno Oliva são economistas

     


    [1] http://www.campeoesdofutebol.com.br/curioso3.html

    [2] http://turandot.dieese.org.br/bdcesta/tmp/10_197760942.html

    [3] Mais de 57% dos jogos oficiais em clubes foram em Campeonatos Paulistas.

    [4] Importante destacar que após a introdução dos três pontos por vitória, em 1995, a média de gols se elevou.

    [5] Praticamente metade dos gols do Baixinho como profissional (incluindo amistosos) foram feitos em Campeonatos Carioca e Brasileiro.

    [6] http://veja.abril.com.br/100702/p_036.html.

    [7] http://oblogdoroberto.zip.net/.

    [8] Isso só corrobora a dificuldade de comparar o talento dos grandes craques.



    Escrito por Jumento de Tróia às 08h26
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    Para que servem os analistas:

    Para que servem os analistas:

    Bruno Rezende e Solange Grando Scorsatto*

    Uma conceituada revista, cujo nome será preservado ao longo deste artigo (EXAME, putz, falei), publicou recentemente uma reportagem intitulada "Para que servem os analistas". Além do questionamento que dá nome à matéria, o autor também faz diversas indagações, às vezes em tom de desabafo, sobre a confiabilidade de previsões e cenários traçados por economistas. Estes últimos, aliás, são jogados pelo autor, juntamente com seus pares futurólogos, magos, cartomantes, profetas, meteorologistas e qualquer outro sacana que se preste a enganar pobres coitados com previsões falaciosas, em um grande saco etiquetado: "PICARETAS". Então por que será que a conceituada revista sempre busca as opiniões destes picaretas?

    Alguns podem até julgar que o texto que se seguirá é enviesado, já que seus autores são economistas. E analistas. Mas, como objeto-alvo do caminhão de abobrinhas que foi despejado sobre o nosso ganha-pão, achamos justo que nos seja dado o direito de resposta, ainda que a mesma, sendo veiculada neste blog de nefastos economistas, enganadores de pobres investidores, não tenha o mesmo alcance do artigo que motivou este texto.

    Inicialmente, e para não dizerem que nós, economistas, desprezamos a carreira jornalística com tanta força quanto parece que o jornalista que escreveu a matéria em questão despreza a carreira de economista, devemos dar créditos às boas constatações feitas por ele na matéria. Essas constatações, porém, foram sistematicamente seguidas de extrapolações "lógicas" esdrúxulas e superdimensionadas, que levam o leitor mais leigo a enxergar uma realidade deturpada, como se cada analista ou economista fosse individualmente responsável pela crise. A nosso ver, a alta carga de emoção do texto parece denunciar a verdadeira inspiração daquela reportagem. O cara deve ter perdido (muita) grana na bolsa.

    Vamos a um exemplo prático de como a alta dose de emoção do texto pode levar leitores desavisados a odiar estes nefastos economistas. Em certo ponto do texto, o autor comenta, segundo suas próprias palavras, que: "No Brasil, porém, ninguém errou tão feio - e com conseqüências tão dramáticas para milhões de pessoas - como os analistas de ações".

    Em primeiro lugar, os investidores são livres para escolher investimentos que se adéqüem ao seu perfil de risco. Assim, independentemente da bolsa ter sido nos últimos anos uma alternativa de aplicação altamente rentável, todos os investidores que optaram por ela deveriam saber que estavam sujeitos a perdas.

    Dito isso, as conseqüências dos erros dos analistas poderiam ter afetado milhões de pessoas se estivéssemos na China. No Brasil, segundo dados da própria BM&FBovespa para o mês de novembro[1], o número total de investidores pessoas físicas contando tanto cidadãos brasileiros quanto estrangeiros era de exatamente 548.706 pessoas, valor bem abaixo dos imprecisos "milhões" citados na matéria.

    Os dados da BM&FBovespa também revelam que o valor total movimentado em novembro foi de R$ 71,7 bilhões, dos quais 34% ou R$ 24,3 bilhões foram movimentações de pessoas físicas. Fazendo uma conta simples de padaria só para termos noção de grandeza, se dividirmos o total movimentado por pessoas físicas em novembro pelo número de pessoas físicas na bolsa no mesmo mês, temos uma movimentação média por pessoa de R$ 44,4 mil reais.

    Ora, ora, então qual é a conseqüência de uma pessoa que tem R$ 44,4 mil de seu patrimônio em capital livre para aplicar em risco e perdeu, vamos supor, 50% do valor que aplicou? Provavelmente ela vai viajar para a Bahia no final do ano ao invés das Bahamas, ou vai esperar um ano a mais para trocar de carro. Afinal, isso não parece ser uma conseqüência tão dramática para estes milhares, e não milhões, de pessoas, quanto será para as também milhares, e possivelmente milhões, de pessoas que perderão seus empregos em decorrência dos erros muito mais grosseiros dos gestores públicos americanos que deixaram a coisa chegar aonde chegou. Ou alguém realmente acha que a crise se instalou por falta de aviso?

    A pergunta feita acima, aliás, remete a um segundo ponto da matéria que precisa ser esclarecido. Em determinado momento, quando divagando sobre o circo de horrores que é o trabalho dos analistas, o autor do texto colocou no mesmo saco pitaqueiros furados e economistas agraciados com o prêmio Nobel.  Mais uma imprecisão. E das grandes. O autor, além de quase ignorar a existência de economistas renomados ainda dá destaque para Jim Cramer, um jornalista fanfarrão que dá dicas eufóricas em um programa de TV sobre aplicações no mercado financeiro.

    Dentre os vários economistas que previram a atual crise está justamente o mais recente ganhador do prêmio Nobel em Economia - Paul Krugman, professor da Universidade de Princeton. Desde 2004, nas suas colunas no conceituado jornal The New York Times[2] e nos debates acadêmicos, falava em uma desvalorização do dólar e de outros ativos financeiros, caracterizando tal fenômeno como "Efeito Coyote", referência ao personagem do desenho animado, que, em perseguição ao ágil papa-léguas, corria alguns metros além da borda do penhasco, antes de o perceber. A queda brusca e repentina era inevitável.

    E de fato os investidores correram por um bom tempo além do limite do penhasco. Investiram-se fortunas em papéis hipotecários, equivocadamente classificados pelas agências de ratings como títulos de baixo risco - rating AAA - quando na verdade eram investimentos altamente arriscados. A bolha estourou, e os devedores de hipotecas se deram conta de que carregavam um ativo com valor negativo, ou seja, a dívida financiada era maior que o valor do imóvel naquele instante. Neste caso, devolveram a casa ao banco, pararam de pagar seus financiamentos, e os investidores ficaram com o mico. Krugman e muitos outros economistas sérios já tinham batido várias vezes na tecla alertando para o crescimento explosivo no preço de alguns ativos.

    Neste caso então, tomando a liberdade de fazer generalizações como as que foram feitas na matéria, podemos dizer que os ECONOMISTAS não falharam nas previsões. Os sinais da crise eram evidentes, mas o timing dos eventos não era claro. O ponto que deveria ser questionado não é a competência dos economistas em suas previsões, mas sim por que os gestores públicos ignoraram as previsões dos economistas. Porque os agentes econômicos americanos consideravam o seu sistema financeiro autônomo o suficiente a ponto de conseguir se recuperar em um período curto de tempo? Ainda, porque havia a crença de que o Federal Reserve Bank (banco central americano) era onipotente, capaz de resolver qualquer problema macroeconômico, quando o banco central do Japão falhou nas várias tentativas de engrenar a economia? Se levantasse estas indagações, certamente a matéria teria sido mais interessante e instigante, mesmo que vendesse menos.

    Mas vamos lá. A explicação para as perguntas que não foram feitas é simples: ninguém queria ser o estraga-prazer da festa. Enquanto o mercado imobiliário estava inflacionado, bancos e financiadoras de hipotecas ganhavam muito dinheiro emprestando para qualquer um que batesse à sua porta. Os bancos de investimentos estavam forrando os bolsos "empacotando" as hipotecas em novos derivativos. Os administradores destes fundos ganhavam milhões de dólares comprando estes derivativos com recursos dos investidores e obtendo grande margem de lucros. Então, quem queria ouvir dos economistas que tudo isso era uma ilusão, ou que tudo isso não passava do chamado esquema de Ponzi? Nós respondemos: ninguém!

    Fazer previsões de crise não é como sentar em frente a um computador e escrever meia dúzia de frases sobre qualquer assunto. Os modelos são matematicamente sofisticados. Há falhas nos modelos? Não diríamos falhas, mas sim limitações por não conseguirmos prever o comportamento humano diante de certas situações. Desta forma, muitas vezes somos levados a trabalhar com hipóteses que simplificam a realidade. Além disso, como a base dos modelos são dados históricos, não é possível fazer previsões com 100% de certeza. Por fim, uma crise que ocorreu no passado não afasta a probabilidade de uma nova no futuro.

    A função do economista é apontar quais são os cenários mais prováveis com base nas informações disponíveis. Mas como não é possível antever todos os efeitos possíveis, nenhuma projeção econômica pode vir com garantia de fábrica. Mesmo assim, a crise foi antevista, e não por uma análise quantitativa, mas qualitativa, e neste caso, é impossível precisar o momento exato em que a corda vai estourar, não se tem informação suficiente para isso.

    Assim, se quiserem apontar um culpado pelas perdas de quem apostou no mercado financeiro podem culpar, tomando a liberdade de fazer outra generalização, a ganância humana e a má regulação do mercado, e não especificamente a nós economistas, agora já não tão nefastos quanto éramos no início deste artigo.

    A única certeza é que enquanto esperamos a bolsa subir para podermos trocar nossos carros e viajarmos para as Bahamas, nós, os economistas, vamos continuar trabalhando e estudando para construir cenários confiáveis, que, conforme mencionado pelo autor no final da reportagem, continuarão sendo usados para municiar os jornalistas e balizar ações  de empresários e consumidores. Pelo menos em alguma coisa a gente concorda.


    [1]  http://ri.bmfbovespa.com.br

    [2] www.nyt.com

     

    *Bruno Rezende e Solange Grando Scorsatto são economistas

     



    Escrito por Jumento de Tróia às 19h04
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